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Impressões inacabadas sobre o dia da prisão de Lula

Lyndon Santos*

Assisti a missa. Foi uma mistura de sagrado e de profano. Não o digo de forma negativa. O político e o sagrado sem fronteiras nítidas. Precisamos pensar nisto. Enquanto o sacerdote dirigia a missa entremeada de MPB e samba, o pessoal tinha outros sentimentos nem sempre tão cristãos assim. Misto de resistência, luta, paixão, ira, esperança e utopia.

O pedido para não se entregar ecoou “fora da ordem”, interrompendo a sequência. O discurso de Lula foi emblemático. 1. Por ser o seu lugar de fala primeiro, o sindicato. Começou falando como sindicalista; 2. Depois situou-se como constituinte, decidiu fazer uma carreira política fora do congresso (início do lulismo?) e pulou as derrotas dos anos noventa; 3. Terminou falando como (ex) presidente e falou do processo de julgamento. Mandou recados, assumiu que vai se apresentar (não que irá se entregar, há diferença). Fez referências às pessoas no palanque, uma por uma, falando de seu apreço e reconhecimento, enfatizando duas lideranças jovens: Guilherme Boulos do PSOL e Manuela D’Ávila do PCdoB.

Lula aprendeu a ser diplomático, a conciliar, recuar e avançar de acordo com o fluxo das tramas políticas. O episódio inicial que narrou da greve dos metalúrgicos em 1978, quando achava que aceitar a proposta das montadoras era melhor e os operários não aceitaram, foi uma experiência matriz para o seu modo de agir posterior. Interessante que não foi a experiência parlamentar que o marcou, mas a da greve e das negociações.

Percebi mais de um Lula apelando para todos serem Lula. Mas, qual dos Lulas? Todos ao mesmo tempo ou, pelo menos, um deles. O último tem sido o que é consciente do jogo, que conhece o outro lado e que tensiona para negociar.

*Historiador

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