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Algumas reflexões sobre a intervenção

Monica Francisco*

Desde a última sexta-feira,16/02, quando a notícia da intervenção federal no Rio de Janeiro na área da segurança foi anunciada, as muitas vozes contra e à favor incondicionalmente ou à favor com ressalvas, se elevaram por diversos canais. Muitas entrevistas, análises, posts e reuniões vem sendo realizadas em um frenesi só visto pela última vez, nesta área, quando da implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), após a ocupação do morro Santa Marta em Botafogo, que reeditava  e turbinava os antigos GPaes(Grupo de Policiamento em Áreas Especiais). Em seguida viriam  instalar-se em outras favelas espalhadas pelo agora já amplamente conhecido “Cinturão de Segurança”, envolvendo locais onde os eventos esportivos sediados no Rio de Janeiro pudessem transcorrer em segurança, assim como os deslocamentos oficiais.

Não há como não lançarmos mão da memória e dos acontecimentos pregressos para nos orientarmos de alguma maneira e darmos seguimento e suporte às ideias. Ao refletirmos sobre os caminhos percorridos até aqui, damos conta de que 2018 é um ano emblemático. Este ano completam-se 30 anos da promulgação da Constituição de 1988, a “Constituição Cidadã”, onde os horizontes da democracia brasileira à partir dali tendiam a se ampliar e consolidar o tão sonhado estado de bem-estar social e materializar os anseios dos diversos movimentos sociais que lutaram por uma sociedade mais justa e menos desigual. Em 2018 também completam-se 130 anos da “Abolição da Escravatura” com a assinatura da Lei Áurea.

A exposição a essas datas nos chama a pensar em quanto todos estes eventos nos trazem a sensação de que ainda há muito o que fazer em defesa e luta por manutenção de direitos. Alguns argumentos dão conta de que a juventude da nossa democracia e a construção social brasileira, baseada na exploração cruel da mão-de-obra de uma população expropriada da sua humanidade, desde o seu sequestro no continente africano, condução até aqui em condições para lá de indigna e não contemplada de forma alguma com o fim da vigência do período oficial da escravidão no Brasil(cerca de mais de 300 anos), imprimindo à sociedade brasileira uma marca e uma atitude ainda contaminada de preconceitos e dinâmicas discriminatórias, que vão sendo incorporadas aos hábitos diários, traduzidas em uma sociabilidade singular, fruto de uma forma de racismo que produzimos por aqui e que vão inclusive dar musculatura à elaboração de leis que ainda oprimem aos indivíduos pertencentes a população negra (em todas as suas nuances) prioritariamente.

É preciso em meio às reflexões, entender que todas as facetas deste golpe, que é político, jurídico, midiático, sim, é também e sobretudo, fruto do racismo incrustado na sociedade brasileira. São os pretos(as) e pardos(as) que vão sentir em sua realidade cotidiana o peso das reformas e decretos. São as pessoas que compõem este grupo que sentem ainda as cadeias, as amarras sociais em seus corpos alvo das armas de fogo em números cada vez mais e ainda  ascendentes. A quem as agruras dos serviços essenciais é vivenciada e sentida das piores formas e com as piores experiências. É nos lugares das experiências de vida(trabalho, casa, bairro, loteamentos, lazer, favelas, rua….) dessa população, que a força dos ataques à jovem e frágil democracia brasileira nas suas diversas ações, sejam na militarização exacerbada do seu cotidiano, consolidando-a como alvo permanente das experiências na segurança pública principalmente.

Para lá das brilhantes análises, que dão conta de quase tudo, a dimensão da raça e a força do racismo institucional, invisibilizada pela torrente de movimentações e mudanças políticas dos últimos anos, não devem ser negligenciadas. A (re)instituição no discurso oficial da intervenção,  das favelas como lugar do risco máximo e de geradora barra pulverizadora do mal que se espraia e ameaça toda a sociedade, causa espécie e também (re)institui e ratifica sua população como perigosa e passível de todas as formas de violações, ou seja, a figura do individuo negro(a) como elemento altamente perigosos(a) e da necessidade constante de controle.

Fica a incerteza e também o medo, sim, não podemos negar o medo, a tristeza e por vezes o desencanto; o medo por instantes até nos põe em suspenso, nos tira o ar, mas sobretudo, no caso das classes populares nunca nos paralisou por completo, porque dele também surge a força da resistência, das redes de solidadriedade, dos coletivos(as), das mulheres, das juventudes, emerge o senso de proteção mútua, e da capacidade de reinvenção das próprias formas de (re)existir em meio a toda essa avalanche.

A democracia vivida pelas camadas populares, escassa, insuficiente e limitada, é aquela que é construída por elas próprias.

*Socióloga, articulista do Jornal do Brasil e faz parte da Diretoria de Paz e Esperança no Brasil

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